DPCA - Esportes


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CARDIOLOGIA        
CLÍNICA              

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 Cardiologia Clínica, 23 (2008)
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Artigo Técnico
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Considerações sobre Atividade Física*
Zavelinski, A. C. **
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Departamento de Pesquisas Científicas, AMAPAZ (Associação pelo Meio Ambiente e pela Paz), Curitiba, Pr, Brasil.
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Recebido  23  agosto 2008; aceito  28 agosto 2008  
 Resumo O sedentarismo é um dos fatores que contribuem para o aumento de incidência das doenças cardiovasculares observado nas sociedades modernas e o seu abandono é uma das maneiras mais eficientes de promover a saúde.  Neste artigo o autor mostra alguns dados que demonstram os benefícios da atividade física regular sobre a saúde e o bem-estar da população. Por outro lado, citam-se dados que mostram que, a despeito dos benefícios, as atividades físicas oferecem riscos, e estes não são desprezíveis, principalmente no que se refere aos traumas. Cerca de 5% a 7% dos praticantes de esportes envolvem-se, a cada ano,  em acidentes que geram lesões ortopédicas de variada gravidade – aproximadamente 10% delas, fraturas. Os dados apresentados indicam que a melhor relação risco-benefício se apresenta com a adoção de atividades físicas regulares, de moderada intensidade e não competitivas.® 2008 Amapaz . Todos os direitos reservados. 

Palavras-chave: Atividade física; Benefícios / riscos dos esportes; Acidentes e lesões em esportes; Condicionamentos saudáveis

* Este artigo foi baseado em pesquisas realizadas no site www.pubmed.gov  e na apresentação de Turíbio de Barros -  Fisiologista, USP,  São Paulo,  no Simpósio  “Morte Súbita Ligada ao Exercício”, março, 2005, Curitiba, Pr, BR.  
** Médico cardiologista,  Santa Casa de Curitiba,  Clínica Zavelinski, Curitiba, Pr, Br.



          Nas sociedades modernas, uma conjunção de fatores como a mudança do perfil das profissões, progressivamente menos dependentes de trabalhos físicos, a melhora do acesso a uma série de comodidades como carro, elevador e outros, associados à diminuição dos espaços onde se possa desenvolver atividades físicas e à sensação prevalente de exposição à  violência ao se deixar o ambiente de casa, têm contribuído para o crescimento progressivo do sedentarismo.

 

          O sedentarismo, freqüentemente associado a outros fatores prejudiciais como obesidade, tabagismo e estresse  determina piora da qualidade de vida e da saúde. Observe-se o aumento da incidência das doenças cardiovasculares, do diabete e de suas complicações.  

           Preocupante também, é observar que o nível de atividade física não só dos adultos mas também o das crianças vem diminuindo muito.

 

           Comparando-se a atual situação com a de 50 anos atrás, as crianças de hoje gastam 600 calorias por dia a menos em atividades físicas. As brincadeiras ao ar livre foram substituídas por horas em frente à televisão ou ao computador e vídeo-games.

           Muitas pesquisas demonstram, por outro lado, que a introdução de atividades físicas em nossa rotina é capaz de melhorar uma série de funções do corpo, a começar pelo desempenho cárdio-respiratório , estendendo-se  pela melhora da eficiência metabólica, do sono e do humor.  Demonstrou-se, por exemplo, que o exercício físico regular e de moderada intensidade é tão eficiente quanto os antidepressivos no tratamento das depressões leves a moderadas. Também se mostrou sua eficiência em reduzir a pressão arterial, baixar o colesterol e ajudar a prevenir a controlar o diabete. 
          Com base nesses dados o CDC (Centers for Disease Control and Prevention) e o ACSM (American College of Sports Medicine) 
publicaram em 1995 a recomendação de que todas as pessoas devem realizar atividades físicas de moderada intensidade na maioria dos dias da semana. Recentemente esta recomendação foi atualizada para : 30 minutos de atividade física aeróbica de moderada intensidade pelo menos 5 dias por semana”. Há benefício adicional no acréscimo de exercícios de força 2 vezes por semana.
          Os gráficos a seguir mostram alguns dados relativos aos benefícios sobre a saúde determinados pela atividade física. O gráfico 1 mostra a inequívoca redução do risco cardiovascular com o incremento da atividade física. As pesquisas aqui agrupadas mostram benefício visível mas mais evidente na transição de níveis baixos de atividade para níveis moderados. O acréscimo de intensidade, de média para alta, traduz-se em ganhos menores.

 

 

A relação entre o nível de atividade física com a mortalidade por doença coronaria

 

            O gráfico 2 mostra que o  nível de treinamento físico traz benefícios à saúde proporcionais ao seu incremento. Esta relação, entretanto, não é linear. Ganha-se muito benefício com as mudanças iniciais de condicionamento físico, mas este ganho diminui com  o aumento da intensidade de treinamento. O grande benefício é obtido quando um indivíduo sedentário se torna moderadamente ativo. Quando o moderadamente ativo se torna altamente ativo há, proporcionalmente discreto ganho para a saúde e, a partir de certo nível de treinamento, já não ocorrem ganhos. Só há aumento de risco e de lesões.    

 

A curva dose-resposta

 

             Os gráficos 3 e 4 mostram a perda capacidade funcional representada pela diminuição do VO2 (consumo máximo de oxigênio – marcador de desempenho físico) que ocorre com  o aumento da idade. Em todos os níveis de treinamento ocorre decréscimo da capacidade funcional com o envelhecimento, mas a velocidade com que este ocorre é  menor no grupo moderadamente ativo. Ou seja, tanto os sedentários quanto os altamente ativos perdem desempenho com velocidade maior, determinado que, a partir da 6ª década de vida a capacidade funcional dos que foram moderadamente ativos fique maior do que a dos intensamente ativos, uma vez que o desgaste do corpo e as lesões são mais importantes no grupo dos “atletas“.  

 

Redução de VO2 máx com o aumento da idade

 

VO2máximo por idade para sedentarios, ativos e altamente ativos

 

           Apenas como ilustração de como a atividade física de alto desempenho é lesiva ao corpo, podemos citar pesquisa feita com jogadores de futebol profissional atuando no Campeonato Brasileiro,  medindo o grau de lesão muscular após um jogo normal. Dosa-se, para isso, o nível sanguíneo de uma substância chamada creatina-fosfo-quinase (CPK). Seu aumento mostra ruptura de células musculares do atleta. Os valores normais desta enzima não ultrapassam 200 U/l. Quase todos os jogadores mostram, após o jogo,  níveis maiores que 600 e alguns chegam a 1200. Só há retorno aos valores basais depois de 3 dias.           

        Os exercício de alto desempenho, especialmente os competitivos, se acompanham, sem dúvida,  de alguns inconvenientes, como a grande demanda de tempo e de esforço para manter o alto nível de treinamento, o aumento das lesões ósteo-muscular e dos traumatismos em geral e o aumento do risco de morte súbita.

          Por falta de dados nacionais a respeito de trauma ligado a esportes, trazemos aqui dados de uma revisão sistemática publicada em 1999 por Steinbrück K no Sportverletz Sportschaden e indexada na base de dados Pubmed (Pubmed.org)  a respeito de traumas ligados à atividade esportiva. A revisão se refere a artigos científicos publicados entre os anos de 1972 e 1997 na Alemanha.

       Estes artigos relatam a situação de 30.603 esportistas com um total de 34.742 lesões que  foram atendidos em ambulatórios especializados em ortopedia e traumatologia em várias cidades da Alemanha. ¾ dos atendidos eram homens e a faixa etária de maior freqüência era a dos 20 aos 29 anos.

      Os gráficos seguintes informam o resultado do agrupamento de todos os trabalhos citados.                               O gráfico 5 cita os esportes causadores dos traumas. Chama a atenção que o futebol é o mais freqüentemente envolvido. Assim como no Brasil o futebol é o esporte mais apreciado e praticado pela população alemã. 
 

Esportes causadores de lesões

1) Futebol 

10.493 

(34,3%)

2) Esqui

3.632

(11,9%)
3) Handebol

2.307

(7,5%) 
4) Tênis

1.643

(5,4%) 
5) Vôlei1.550(5,1%) 
6) Outras11.978(39,14%) 
 
 
            O gráfico 6 mostra as áreas lesadas. Note-se que quase 1000 destes esportistas tiveram lesões na coluna, o que ilustra o potencial de geração de seqüelas graves.

 

Áreas mais lesadas

 

1) Coluna 3% 
2) Joelhos36,6% 
3) Tornozelo19,9% 
4) Ombros7,7%
5) Perna7,0% 
6) Dedos5,8%
7) Outros20%

 

 

          O gráfico 7 informa a natureza das lesões. Observe-se que cerca de 30%, cerca de 10000 casos, corresponderam a lesões graves como fraturas e ruptura de ligamentos e meniscos, situações que, quase sempre, requerem a realização de cirurgias. A propósito, todos nós conhecemos alguém, de nosso círculo de relacionamento, que já tenha sido submetido a:

Tipos de lesão
 

 

1) Torção32,6%
2) Ruptura de ligamentos e meniscos21,5%
3) Fraturas10,5%
4) Lesão de músculos e tendões8,8%
5) Outros26,6% 


 
        Os números citados nesta revisão referem-se apenas a dados publicados em revistas científicas, não representando, portanto, o total de casos ocorridos. Dados de 1998 citam que 26,7 milhões de alemães (cerca de 1/3 da população)  fazem alguma atividade esportiva. Nesta população ocorrem cerca de 1.5 a 2 milhões de acidentes por ano e isto representa de 25 a 30 % de todos os acidentes acontecidos no país.

 

            Em relação aos esportes competitivos, inegavelmente, há que se considerar o seu benefício enquanto exercício em si e o seu aspecto lúdico, interessante por aumentar a adesão.  Há, entretanto, algumas desvantagens a considerar:

           

1-       A dificuldade em se “dosar” sua intensidade, fazendo com que, muitas vezes, não se respeitem os limites de segurança.
2-       O risco de traumas tanto pelo intenso esforço despendido quanto pelo choque entre os competidores e o impacto dos objetos usados na modalidade, a bola, por exemplo.
3-       Fatores psico-emocionais e comportamentais.:
   
a)       Competitividade. Quando “ganhar” se torna o objetivo da atividade, outros valores e aspectos se tornam secundários. Para que um competidor possa ganhar, outro tem que perder, ou mais precisamente, outros vários têm que perder. Para que um seja gratificado, vários outros têm que ser frustrados. Temos assim o prazer de um como contraponto ao sofrimento de vários outros. Geramos então, para cada “ganhador”, um grande número de perdedores, criando espaço para ressentimentos e vários sentimentos não construtivos.

            Fica, portanto, claro, a partir da análise dos dados acima citados,  que a relação custo-benefício ( a comparação entre as vantagens e as desvantagens ) mostra-se muito mais vantajosa para as atividades físicas de moderada intensidade, de preferência não competitivas, se comparadas com a atividade esportiva, especialmente a competitiva. Podemos, então discordar com veemência da máxima muito citada “ Esporte é saúde”.Em termos fisiológicos, um bom esquema de atividade física deve ser capaz de oferecer benefícios em 3 áreas:
1 - Condicionamento cárdio-respiratório. Todas as atividades físicas aeróbicas são úteis neste sentido.           
2 – Tônus e força muscular. Os exercícios resistidos (realizados contra força) são necessários para beneficiar este aspecto.
3 – Elasticidade. Alongamentos e ginásticas de vários tipos são úteis neste particular.

 

          Fica evidente que uma única modalidade de exercício não é capaz de nos dar todos os benefícios que pretendemos obter. O uso de modalidades de exercício que combinem alguns destes benefícios ou a combinação de mais de uma modalidade são necessários para cobrir todo o espectro de benefícios  esperado ao se iniciar um programa de atividade física.

          O atual modo como a atividade física, ou “educação física”, é apresentada às crianças não tem sido capaz de nelas criar o hábito ou condicionamento suficientes para que a atividade física seja mantida a longo prazo, como uma rotina de vida. Várias pesquisas relatam o progressivo abandono dos exercícios com o passar dos anos. Dados nacionais informam que menos de 10% da população adulta faz exercícios regulares para melhorar a sua saúde. Apenas os mais hábeis, que geralmente ganham ou os mais competitivos, que se gratificam com o competir, ou ainda os que tenham a sorte de não sofrer lesões, dão seqüência a suas atividades ao longo da vida. Não se deve ainda esquecer o fato de que as atividades esportivas necessitam de local apropriado e não podem ser realizadas individualmente, contribuindo para o seu abandono. A auto-suficiência oferecida pelas atividades não competitivas nos permite incorporá-las à nossa rotina e colher seus benefícios ao longo de toda a vida.

         Conclusão: Se o objetivo da introdução da atividade física em nossa vida e na vida de nossos filhos é obter o maior benefício possível à saúde e ao bem-estar com o menor risco e sofrimento, podemos dizer que a opção que melhor se ajusta a esse perfil não é, sem dúvida, o esporte competitivo e sim atividades como caminhadas, corridas, dança, yoga, ginástica e outras que venham a nos oferecer prazer e melhora cardiovascular e metabólica sem os inconvenientes dos esportes. 

Dr. Antonio Carlos Zavelinski
Cardiologista –  CRM 11314 -PR



 
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